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O Grande Circo Místico. O machismo atravessa gerações

O Grande Circo Místico. O machismo atravessa gerações

O Grande Circo Místico

O machismo atravessa gerações

 

A ansiedade pelo novo filme de Cacá Diegues era grande. Sabia-se que o cineasta desenvolvia o projeto há anos, partindo do espetáculo inspirado no poema de Jorge de Lima e com trilha sonora de Chico Buarque e Edu Lobo, incluindo canções belíssimas como “Beatriz” e “Ciranda da Bailarina”. Pelo retrato de cinco gerações da mesma família, em tom de realismo fantástico, esta poderia ser a oportunidade de unir o lirismo do circo, do teatro, da música e do cinema brasileiros num espetáculo só. O elenco, incluindo ótimos nomes como Jesuíta BarbosaJuliano Cazarré e Bruna Linzmeyer, aumentava o potencial da adaptação.

As promessas, infelizmente, não se cumpriram. As expectativas atrapalham, é fato, mas neste caso será difícil culpá-las. Esteticamente, o filme fica aquém do retrato de deslumbramento comum ao circo: os números são burocráticos, executados na maior parte do tempo diante de uma plateia vazia. A trupe é composta por pessoas que permanecem neste local há gerações, mas não revelam apego particular às artes circenses. Elas não treinam, não discutem criação, dinheiro, estética. O recente documentário Pagliacci, de baixo orçamento, transmitia com facilidade o desbunde estético de um picadeiro. Aqui, a magia não opera.

Isso se deve a uma série de fatores. A montagem estica as cenas para além do necessário, comprometendo a surpresa e também o humor. A fotografia, com suas luzes duras de foco único, gera mais sombra do que luz, além de fracassar na tentativa de retratar volumes, texturas e cores. O circo adquire um caráter estéril, como se estivesse abandonado há muito tempo, mesmo em plena atividade. Não ajuda o fato de os personagens serem intercambiáveis: o roteiro não desenvolve nenhum membro da família Knieps para além de um conflito único para cada um. Eles se transformam em estereótipos: a religiosa, o homem ganancioso, a cantora drogada, o irmão incestuoso etc.

É positivo que o filme não tenha pudores para retratar o valor do sexo num relacionamento afetivo. Mas é questionável a representação das mulheres apenas como objeto de admiração dos homens, que desfrutam de seus corpos quando bem entendem. A continuidade das cinco gerações familiares se deu principalmente graças ao estupro e o incesto. Não há problema em ilustrar estes elementos, contanto quem com o devido distanciamento e/ou posição crítica. No entanto, o filme insiste que se trata de relacionamentos comuns, histórias de amor como quaisquer outras. “C’est la vie”, repete o condutor do espetáculo Celaví, sugerindo que “a vida é assim mesmo”. A banalização da violência soa um tanto perturbadora.

O Grande Circo Místico sofre de uma indefinição conceitual grave. Pretende falar de magia, sem se aprofundar no universo fantástico – ora os elefantes e leões soam naturalistas demais, ora as borboletas digitais são exageradamente falsas. Pretende comover com dezenas de dramas pessoais, mas se recusa a desenvolver qualquer personagem. Os únicos motores de ação são aqueles de ordem folhetinesca: os nascimentos e mortes, casamentos e gestações. Mas o que pensam, o que desejam, como se desenvolvem estes pais, filhos, filhas, avós? Não sabemos.

 

Bruna Linzmeyer consegue demonstrar sua habitual desenvoltura com diálogos, Jesuíta Barbosa traz certa picardia a seu papel, mas nenhum personagem soa minimamente verossímil e, portanto, passível de identificação. Beatriz não brilha, não despenca do céu; os pagantes não exigem bis; nós não entramos na sua vida.

Filme visto no 71º Festival Internacional de Cannes, em maio de 2018.

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