Atividades Culturais

35º Panorama da Arte Brasileira ATÉ 17 DEZ, 2017

35º Panorama da Arte Brasileira ATÉ 17 DEZ, 2017

35º Panorama da Arte Brasileira

ATÉ 17 DEZ, 2017

 

Brasil por multiplicação

Da adversidade seguimos vivendo. Em 1967, Hélio Oiticica escreveu um texto determinante para se pensar a arte e o Brasil. Intitulado “Esquema Geral da Nova Objetividade”, há nele um desenho panorâmico da cena artística àquela altura e dos desafios a serem enfrentados. Escrito em um momento politicamente tenso, com desalentadoras perspectivas de futuro, para dizer o mínimo, ele destaca seis características da arte brasileira: (1) vontade construtiva; (2) tendência para o objeto; (3) participação do espectador (corporal, tátil, semântica); (4) abordagem e tomada de posição em relação a problemas políticos, sociais e éticos; (5) tendência para proposições coletivas; (6) ressurgimento e novas formulações do conceito de antiarte.

Uma pergunta, ainda atual, perpassava a escrita do Esquema Geral: como apostar em uma relação nova entre singularidade local e inserção global. No caso da cultura brasileira – e isso foi colocado de modo muito original pela geração tropicalista sob a influência da Antropofagia – nossa singularidade foi sendo construída pela mistura de diferentes matrizes culturais. Ou seja, não temos uma essência própria, uma marca de origem a ser depurada de qualquer contaminação indesejada, vivemos da apropriação constante do outro, somos uma colagem de influências que não para de se transformar. Como escreveu Oiticica, estamos sempre “à procura de uma caracterização cultural, no que nos diferenciamos do europeu com seu peso cultural milenar e do americano do norte com suas solicitações superprodutivas”.

As seis características apontadas acima seguem valendo – não obstante as diferenças de contexto – para se pensar a arte produzida hoje. Buscamos evidenciar isso neste Panorama. Sem qualquer tematização daquelas tendências, elas perpassam indiretamente os trabalhos aqui apresentados. A despeito da falência da ideia de progresso e de uma avassaladora crise urbana e ambiental, ainda resiste uma vontade construtiva entre nós. Uma construção que se sabe frágil, mas crucial para enfrentar os riscos de uma informalidade desagregadora. Nota-se também uma crescente abertura do fazer artístico para problemas sociais, éticos e políticos, ou seja, para um engajamento, nada simplificador, que acredita nas brechas em que a arte quer se infiltrar para tentar mudar as coisas – sabendo-se que querer mudar não basta e que sua impotência pode ter desdobramentos imprevistos.

Reunir em uma exposição, que se pretende um Panorama da Arte Brasileira, desde a concretude da intervenção arquitetônica até a fluidez da dança, passando pelo audiovisual, pela escultura, pela fotografia e pela palavra, mais que explicitar a diversidade da cena contemporânea, em que a divisão de meios expressivos e de disciplinas parece obsoleta, busca ressaltar a multiplicidade de tempos que compõem nosso momento histórico. O tempo do corpo que dança, da palavra escrita e da imagem projetada respondem a formas de percepção e de experiência plurais. Simultaneamente, é parte de nosso desafio articular os diferentes imaginários que se contaminam e se multiplicam no Brasil entre a cidade e a floresta, as comunidades periféricas e os centros cosmopolitas, entre o caos, a indeterminação e o mito.

Misturar poéticas conflitantes, trazer outras vozes e gestos para dentro das instituições que constroem as narrativas hegemônicas, revelar antagonismos e diferenças, tudo isso é parte de uma ideia de Panorama e de uma discussão sobre o Brasil. Isso, no exato momento em que o Brasil vive uma de suas piores crises de identidade, quando a promessa de futuro virou uma terrível distopia que constrange as possibilidades do presente, parece propício colocar, mais uma vez, a pergunta sobre o Brasil. O Problema-Brasil é um desafio e uma miragem: aparece como promessa de alegria, mas escapa quando vamos em sua direção. E, a cada passo, parece que vai para mais longe. Entretanto, não dá para virar as costas; há que se encarar a miragem, ao mesmo tempo ilusória e real, fazendo deste enfrentamento o caminho para nos tornarmos menos assombrados com nossa assustadora incompetência coletiva. A arte é o espaço disponível para ampliarmos o campo do possível.

Luiz Camillo Osorio

ARTISTAS

Sala de Vidro

João Modé (Rio de Janeiro) – na instalação inédita, o carioca cria um jardim dentro da Sala de Vidro do MAM SP, na tensão entre natureza e cultura.

Sala Paulo Figueiredo

Coletivo Mão na Lata e Tatiana Altberg (Rio de Janeiro) – seleção da produção fotográfica dos participantes do coletivo fotográfico da Maré, que, ao retratar seu cotidiano, assume a representação de sua própria identidade com o olhar intrínseco, de quem vive na comunidade carioca.

Dora Longo Bahia (São Paulo) – a paulistana exibe videoinstalação inédita comissionada pela Bolsa de Fotografia ZUM/ IMS 2016. Traçando um paralelo entre as queimadas na Amazônia e o degelo na Patagônia, discute a relação entre vontade construtiva e distopia ambiental.

Lourival Cuquinha e Clarisse Hoffmann (Pernambuco) – Macunaíma Colorau é uma videoinstalação que fala sobre a mestiçagem do povo brasileiro. As pessoas são gravadas descrevendo a cor da própria pele, resultando numa amostragem de narrativas criativas pela imprecisão e variação das tonalidades de pele do brasileiro.

José Rufino (Paraíba) – o artista paraibano apresenta a videoinstalação Almoxarifado, gravada especialmente para o Panorama no interior do almoxarifado da antiga Usina Santa Teresinha, município de Água Preta, fronteira Pernambuco-Alagoas, com a participação de oito ex-funcionários da empresa.

Projeto Parede

MAHKU – Movimento dos Artistas Huni Kuin – O coletivo MAHKU – Movimento dos Artistas Huni Kuin e o artista indígena Ibã Huni Kuin – Isaías Sales (Acre), do povo HuniKuin, apresentam o Projeto Parede com um desenho baseado nas tradições da vida na floresta.

Grande Sala

Barbara Wagner e Benjamin de Burca (Brasília/Alemanha) – a dupla pernambucana-alemã exibe trabalho realizado em São Paulo e ainda inédito.

Beto Shwafaty (São Paulo) – trabalho inédito e outro já apresentado anteriormente, com instalações e esculturas em que elementos utilitários são deslocados de sua função original para o campo do trabalho braçal, na clivagem de sentidos.

Cadu (São Paulo) – o artista exibe instalação inédita, uma mandala gigante feita de peças de crochê, e um vídeo.

Fernanda Gomes (Rio de Janeiro) – a artista apresenta instalação inédita que remete a uma síntese do projeto construtivo no Brasil.

Jorge Mario Jáuregui (Rio de Janeiro) – o arquiteto carioca apresenta seu projeto para um espaço comunitário no Morro do Alemão (RJ).

Karim Aïnouz e Marcelo Gomes (Ceará/ Pernambuco) – os cineastas cearense e pernambucano, respectivamente, apresentam videoinstalação e fotografia.

Leandro Nerefuh (São Paulo) – em Uma Breve História da Banana na História da Arte da Banana, inspirado em seu livro homônimo, Nerefuh toma essa fruta como símbolo da brasilidade e a ressalta em obras de diversos períodos.

Marcelo Evelin (Piauí) – na abertura, o coreógrafo piauiense realiza uma performance inédita, concebida especialmente para o Panorama.

Marcelo Silveira (Pernambuco) – traz uma série de esculturas em madeira acompanhadas de textos.

Ricardo Basbaum (São Paulo) – na abertura, faz uma performance – uma leitura coletiva, que resultará em um diagrama desenhado na parede da Grande Sala, exibido durante a mostra.

Romy Pocztaruk (Rio Grande do Sul) – a artista gaúcha apresenta série de fotografias inéditas sobre as usinas nucleares brasileiras com imagens das instalações internas.

RUA Arquitetos (Rio de Janeiro) e MAS Urban Design, ETH Zurich – o coletivo carioca traz para o Panorama o Varanda Products, projeto de objetos funcionais para espaços que são ao mesmo tempo externos e internos e têm sua tradução mais popular nas lajes das periferias. Entre eles estão o ombrelone que protege do sol e ao mesmo tempo capta água, a espreguiçadeira que também tampa a caixa d’água, cadeiras e mesas descartáveis, etc.

Wagner Schwartz (Rio de Janeiro) – na abertura, o coreógrafo apresenta La Bête, performance em que ele se torna um Bicho de Lygia Clark e pode ser manipulado pelo público.

Sobre o curador

Luiz Camillo Osorio (Rio de Janeiro, 1963) é professor do Departamento de Filosofia da PUC-Rio, pesquisador do CNPQ e curador do Instituto PIPA. Entre 2009 e 2015 foi Curador do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Em 2015 foi o curador do pavilhão brasileiro na Bienal de Veneza. Em 2016 fez a curadoria da exposição Calder e a Arte Brasileira, no Itaú Cultural. Autor dos livros Flávio de Carvalho, Cosac&Naify, SP, 2000; Abraham Palatnik, Cosac&Naify, SP, 2004; Razões da Crítica, Zahar, RJ, 2005 e Olhar à Margem, SESI-SP e Cosac&Naify, SP, 2016.

Sobre o Panorama

O Panorama da Arte Brasileira, ou Panorama, como é mais conhecido, foi criado em 1969 com o propósito de reconstruir o acervo do MAM. Desde então adquiriu inúmeras obras para a coleção do museu, de artistas como Alfredo Volpi, Maria Bonomi, Abraham Palatnik, e Ernesto Neto, entre outros.

O Panorama é realizado a cada dois anos, sendo um espaço de experimentação para curadores e de mapeamento da produção contemporânea em todas as regiões do país.

 

 

Agenda Cultural

RJ/Rio de Janeiro

Museu Imperial tem programação especial no Mês das Crianças. Todas as atividades são gratuitas

SP/Sao Paulo

Pianista Murilo Emerenciano apresenta-se na Sala Guiomar Novaes. O intérprete toca obras de Schubert, Scriabin, Beethoven, Liszt, Francisco Mignone e Chopin

/Brasil

Inscrições abertas para o 8º FICUNAM, na Cidade do México. Evento aceita inscrições até o dia 27 de outubro
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